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Brasão – Boi Morre-Não-Morre

Xilogravura do livro “O Boi Morre-Não-Morre”. Brasão com escudo de couro espichado, com campo contendo o sol ao centro e ao alto, inclemente, e o Boi escanzelado na parte inferior, ao pé da aroeira desfolhada, com a morte representada por dois urubus à espreita sobre a galhada, de asas abertas para o derradeiro abraço. Na parte inferior à esquerda, o xiquexique, representando a vida latente catingueira, inabalável e rija; à direita, o cachorro esfomeado com a própria pata entre as mandíbulas, em seu desespero autofágico. Coroando o brasão, ranchos sertanejos e suas cercas de arame farpado, tendo à frente de si como timbre o triunfante canário-da-terra, representando a continuidade da vida. Gravura representativa, contém as principais cenas do poema.

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O Boi Morre-Não-Morre e os primeiros folhetos

Um romance contemporâneo do ciclo do gado do Cordel, uma elegia à seca, uma fábula que retrata a morte e o renascer da vida na caatinga. O “Boi Morre-Não-Morre e os primeiros folhetos” traz a história dum boi moribundo que luta para permanecer vivo no sertão esturricado, assolado por uma sequência de estiagens severas. Abandonado num curral, vendo a cacimba secar, o bicho é obrigado a desabar pela mata cinza em busca duma fonte d’água a restaurar sua sustança. Nesta jornada se depara com a morte, com o desespero da fome, com vida latente catingueira e testemunha o belíssimo fenômeno do renascer da fauna e flora na caatinga. Além deste poema, o livro traz os três primeiros folhetos do autor revisados.

Abaixo trecho do Boi Morre-Não-Morre:

Num curral depauperado,
Padecendo à sede braba,
Escapava o Boi mirrado,
Ruminando a grossa baba.
O azul do céu, infinito,
Anunciava, bonito,
A seca que não se acaba.

De tão magro já voltara
Ao seu peso de garrote.
O chocalho pendurado
Pesava-lhe no cangote.
No juízo o desmantelo
Do fisiológico apelo
Martelava um triste mote.

Antes da seca medonha
O Boi no curral vivia
Junto com o parco gado
Que também no rancho havia,
Mais um casal camponês.
Na labuta, todos três,
Da caatinga subsistia.

Era bicho de trabalho.
Capado, manso, corpudo.
Puxava arado na roça,
Incansável e forçudo.
No carro de boi cangado
Levava pra todo lado
Gente, lenha, barro, tudo.

Porém, a peleja braba
Nasceu quando o marmeleiro
Enrolou-se na capoeira,
Na várzea e no tabuleiro.
Quando obrigou a estiagem
A conceder vassalagem
Ao sol o sertão inteiro.

(…)

 

Pastorando o cacimbão,
Olhando sobre a mureta,
Na superfície ele via
Refletida a silhueta.
Quanto mais o chão bebia
O nível d’água descia
Feito areia de ampulheta.

Nesta crucial contagem
O gado riscava o chão
Ao olhar a água descer
No fundo do cacimbão.
Sem poder beber, sedento,
O Boi sentia o tormento
De viver na sequidão.

Chegando ao fim da filtragem
O Boi viu no seco fundo
Só o barro enlameado
E, no sofrer mais profundo,
Deu um berro tão comprido,
Soltou tão alto mugido,
Que estrondou no mei’ do mundo.

– Agora acabou-se tudo,
Agora acabou-se o rancho.
Sem forrage’ e sem bebida,
Sem querer me desarrancho.
Vou caçar mei’ de livrar
Minha vida. Vo’ escapar,
Desabar pelos garrancho.

(…)

“O Boi Morre-Não-Morre e os primeiros folhetos”, 120 páginas, edição ilustrada pelo autor. Livraria Lua Nova, Fortaleza, (85) 3214-5488 ou direto com o autor – eduardomacedobms@gmail.com.

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