Crônica sobre o Boi Morre-Não-Morre

Crônica do poeta Marcos Mairton sobre o Boi Morre-Não-Morre, publicada no blogue http://mundocordel.blogspot.com.

“Eu havia chegado de viagem, quando vi na correspondência acumulada da semana um envelope amarelo que se destacava das malas diretas de final de ano e dos boletos bancários. Não só pelo peso e volume, mas principalmente por que meu nome e endereço estavam escritos à mão, e não em uma etiqueta impressa em série.

Era um livro. Um livro pequeno, com as dimensões de um folheto de cordel, exceto no que se refere ao número de páginas, cento e vinte ao todo. O conteúdo também era em cordel. Abri-o aleatoriamente e logo vi as setilhas.

Não havia lido uma página sequer, ouvi o telefone tocar. Deixei o livro ali mesmo, sobre a mesinha da sala e fui atender. Antes, olhei o remetente, dobrei o envelope e o enfiei entre as páginas do livro. “Quando lançar o meu próximo livro, retribuirei a gentileza do autor” – pensei.

Vida louca, essa do século XXI. Só hoje, quase uma semana depois, abri o livro novamente.

Quatro folhetos de cordel foram reunidos nele. Detive-me no primeiro, que dá título ao livro: “O Boi Morre-não morre”. Apropriada leitura para um domingo no qual algumas nuvens cinzentas pairam sobre o céu de Fortaleza, trazendo a esperança de que alguma chuva caia sobre o meu Ceará, ainda neste mês de dezembro.

E que bom seria se chovesse mesmo, não apenas em dezembro, mas por toda a chamada quadra invernosa de 2013. A seca está malvada por aqui. Li recentemente em um jornal que desde 1950 não havia uma dessas.

E, por mais que poetas como Eduardo Macedo façam o milagre de transformar em poesia o sofrimento causado pela seca no sertão, é sempre dolorido ler versos como os que abrem o a história do Boi Morre-não-morre:

Queima, o sol, sua brasa de matar.
Oprimindo, inclemente, causticante.
Sua espada de brilho rutilante
Golpeando, letal, a castigar.
Vendo a vida na terra evaporar,
O Boi, magro de fome e de esperança,
Sem ter vestígio d’água na lembrança,
Resolveu sua fuga empreender,
Para o solo rachado percorrer,
A fim de resgatar sua sustança.

Era um couro engelhado, era uma ossada,
Desidratado espécime de rês
Duma seca que já durava três
Anos sem ter sede saciada.
Olhos foscos na cara descarnada,
Chifres (chumbo!) na cabeça pendente,
Na bocarra esticada cada dente
Simulava um sorriso desgraçado –
Era o Boi renegando o triste fado,
Sem se entregar à morte, renitente.

Que bom seria, meu caro Eduardo, se nos próximos meses a inspiração chegasse a você por meio de grossos pingos de chuva caindo sobre a terra seca do sertão, enchendo os leitos dos rios e pintando de verde a caatinga!

Grato pelo livro que me presenteaste, envio-lhe o meu abraço e votos de sucesso!”

Veja a publicação e conheça a obra do poeta em http://mundocordel.blogspot.com.br/2012/12/livro-de-eduardo-macedo.html.

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4 pensamentos sobre “Crônica sobre o Boi Morre-Não-Morre

  1. Dalgimar Beserra de Menezes disse:

    Prezado Eduardo,

    Recebi e li sua extraordinária lembrança de boas festas. Voltei ao meu Sertão, dos oito primeiros anos de vida – a Gangorra – e de que conheço toda a paisagem descrita tão bem por você – flora e fauna e sofrimento. Babugem, aroeira, imburana, pebas e preás, e boi “magro de fome e de esperança”. No começo de 1951, ajudei meu pai, seu avô Afonsim, a levantar uma rês semi-morta, caída, com o emprego de uma rede ou tipóia, apoiada em quatro estacas – aluía-se a alimária. Nesse tempo, nosso empregado Elias, que mamãe ainda chama Ilia, todo fim de tarde caçava coisa pra comer, às costas uma espingardinha lazarina, de meu pai: olhe, trazia não só preás, mas também punarés, de que ele gostava. Acho que é um roedor selvagem, rato pois. Na seca de 58, ele arranchou-se na casa de meu pai, agora em Fortaleza – Rua Dom Lourenço, 148, São Gerardo, casa hoje pertencente à família de tio Raimundo; rumava, consoante mamãe pro Paraná e nunca mais ouvimos nada dele, talvez por ser analfabeto, nada sabia escrever, talvez por ter sido trucidado cedo pela vida.

    Você usou deveras bem as palavras da minha fauna, flora e sofrimentos: babugem, aroeira, imburana, preás, boi–morre–não-morre. Não sei se você conhece o punaré, que o Ilia comia assado ou cozido; boi-morre-não morre parece um gerúndio, boi morrente, essas coisas. Agora, quanto aos cactos, os do meu conhecimento maior e afeto eram os cardeiros. Tenho uma cicatriz indelével na polpa do indicador esquerdo, feita pela mão direita, em 1948. Afonsim, dentro da bodega faz um pilha de cardeiros recém-torados , me dá uma marreta, diz “esmagalhe os cardeiros, pra dar pro gado. Não use a faca de cortar fumo, está afiada demais”; Virou as costas e eu soltei a marreta, peguei a faca e o primeiro golpe foi no fura-bolos esquerdo. Mamãe estava de resguardo da Lenita. Eu me banhei de sangue. Não adiantava chupar o dedo. Faca nesse dia era peixeira, não quicé.

    Ainda quanto a vocabulário, e o seu é muito rico, gostaria de dizer que no meu sertão, a Gangorra, usava-se muito a palavra milheiro, em vez de milhar; milheiro para mil coisas, e não para milho, portanto, saía expressão assim: um milheiro de espigas de milho, etc.
    Há muito boa poesia nos seus textos, desculpe o comentário, e naturalmente, uma bela inserção política do cordel, no mundo dos excluídos, do neoliberalismo, da globalização.
    Engraçado que você tenha restabelecido o Purgatório que a Igreja aboliu; as penas do embolador são de purgatório. [Além das do trabalhador da empresa moderna]. São as do boi-morre-não morre, “magro de fome e esperança”. Pena do Inferno desde o princípio é a inscrição da porta do inferno da Divina Comédia do Alighieri: “Lasciate ogni speranza voi ch’entrate”. Aliás voltando ao boi, ele, ao fim, se transforma em fonte de vida, caveira , ninho de pássaros, “de canários amarelos/ ali chocou-se fartura”. Parece um final de filme de Chaplin, a vida continua, a estrada da vida continua, ou o fim do grande filme de Ingmar Bergman, “O Sétimo Selo”, em que a morte ceifa todas as vidas, mas é incapaz de matar a esperança, pois a vida da espécie persevera. Ou vida em geral.

    Gostei muito do fato de que você, de um modo bem original, voltasse ao tema de Iracema; ícone nacional, Iracema não é de Alencar somente, pertence, no século XX, a Adoniran Barbosa; é urbana e pobre, e morre atropelada em São Paulo. Por falar nisso, acho que no ano em que nasci, 1942, Orson Welles, esteve e Fortaleza e fez um documentário sobre os jangadeiros, recuperado depois de décadas. “That’s” ou “It’s all true”. No entrementes, morre o Jangadeiro Jacaré, no mar mesmo, mas quem sabe também vague “no oceano sideral”. A literatura mundial e a música registram a lenda do navio fantasma que vaga ou voga perenemente pelos aires (aires, na Gangorra, entonce misto de espanhol e português galego, de Afonsim e Aldenora, e seus pais (deles), e avós e bisavós e etc. Até chegar a latim em flash back linguístico). Ufa! Enfim, “O Holandês Voador”, inclusive ópera de Richard Wagner.

    Quanto aos Tremembés, nos anos setenta do século passado, visitei muitas vezes e fotografei, uma igreja construída por eles, dentre muitas, à margem direita do Rio Aracati-Mirim, na então São Bento de Amontada. Numa casa, debaixo de uma ponte sobre esse rio, que para mim é Aracati-Açu (como o Tejo), habitava sua (do Dudu) tia bisavó, Luiza Tomé, de muita fibra e vivência; foi ela que me levou por vez primeira às ruínas maciças da Igreja dita da Amontada Velha, na época transformada em cemitério clandestino. Costumava-se enterrar gentes em igrejas, e o costume persistiu mesmo nas ruínas de igrejas.

    Eduardo, Louvo o seu talento, parabéns.

    Afetuosamente,

    Dalgimar.

    PS: Também gostei das ilustrações, que no caso, merecem outro longo comentário.

    • Eduardo Macedo disse:

      Prezado Tio Dalgimar,

      A partir do percorrer dos cômodos e corredores da Padre Anchieta 1277 tenho divagado por veredas de terra seca que ligam a Gangorra ao Riacho do Sangue e estes ao Cariri e o Cariri a diversos outros cafundós do Sertão Abissal. Nestas idas e vindas acumulo matéria que serve à produção destes escritos e talhes que, ao menos, trazem sinceridade em sua feitura. Fico muito grato pelas suas colocações; de fato, a vida permanece no Boi mesmo após sua morte, bem como permanece na Caatinga, ficando evidente após o retorno das águas. Os canários e seus estalos estão para o Boi como as chuvas para o sertão. Saiba que os cardeiros, as mucunãs e muito do cinza-amarronzado e do que se escreve neste poema vêm da pedra que se lascou no sopé da Uruburetama. Dona Aldenora, Afonso e sua Gangorrita sempre serão inspiração para mim, e a eles agradeço no livro, pois que tanto colaboraram para o apuro do meu ranço, com suas conversas no quintal, seus relatos, seu vocabulário, seus modos. Sou um Davi e meus filhos também o são.

      Assim como o purgatório, parece-me que o punaré tem ficado no limbo. Depois deste campeonato de porrinha embolador não desce mais ao inferno. Muitos devem durar no purgatório, com certeza, uma vez que nem no primeiro círculo podem adentrar. Quanto ao Jacaré, o admiro bastante; como sou seu hóspede, o mínimo que pude fazer foi esta homenagem, com o jangadeiro Justiniano, Beijupirá, índio dos mares.

      Um forte abraço e obrigado pelo texto.

  2. Pedro Frederico Crisóstomo Miranda disse:

    Bela correspondência, crônicas do bemviver, fredmiranda

  3. Quanta sabedoria! Ê Dudu, seu olhar perspicaz e curioso lhe encheu de idéias tão bonitas e tão reais. E o Dalgimar um nativo Gangorrense assinou embaixo e muito bem! Saudades do Meu Pai, meu Afonsinho…

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